SETEALÉM EM SÃO PAULO:
DESVENDANDO OS 7 PORTAIS DA CIDADE
Relatos, história urbana, território indígena, rios desaparecidos e a hipótese de uma rede de pontos que atravessa São Paulo.
Esta investigação trabalha com três camadas diferentes. Fatos históricos são apresentados como fatos; relatos são tratados como testemunhos cuja origem e veracidade precisam ser avaliadas; e hipóteses são apresentadas como hipóteses. O mapa dos sete portais não prova a existência de uma dimensão paralela: ele organiza uma pergunta.
Existe uma pergunta que parece simples, mas fica mais estranha quanto mais se olha para o mapa de São Paulo: por que tantos relatos de Setealém parecem transformar ruas comuns em lugares de passagem?
Setealém nasceu como uma história de horror contemporânea ligada a um relato atribuído a Luciano Milici em 1994. No site oficial do tema, Milici situa o primeiro contato em outubro daquele ano, quando era estudante da ESPM, na região da Vila Mariana, e afirma que não é possível saber se Setealém realmente existe; segundo a própria página, os demais relatos são testemunhos de terceiros reunidos e reescritos pelo autor. Fonte oficial de Setealém.
É justamente essa dúvida que interessa ao Quero Medo. Em vez de tentar provar que existe um mundo chamado Setealém, vamos fazer algo diferente: voltar para São Paulo e perguntar se a geografia real da cidade ajuda a explicar por que determinadas histórias ganharam tanta força.
O Vale do Anhangabaú, o Viaduto do Chá e os cursos d'água subterrâneos são elementos reais da formação urbana paulistana. O Ribeirão Anhangabaú foi canalizado durante as grandes transformações urbanas do fim do século XIX e início do XX; hoje, a água corre sob a cidade. Essas camadas históricas não são evidência de Setealém — são o território real sobre o qual a lenda foi imaginada.
O mapa que deu origem à investigação
Para esta primeira etapa da série, São Paulo será o único cenário. O objetivo não é montar um mapa mundial de supostos portais, nem misturar cidades diferentes. Aqui, tudo começa e termina dentro da capital paulista.
1. 1994: antes do mito, havia um ônibus
O primeiro ponto desta história não é um portal desenhado no mapa. É um relato.
Na versão oficial publicada pelo próprio universo Setealém, o episódio inicial aconteceu em outubro de 1994. Milici conta que era estudante e voltava da faculdade; em determinado momento, entrou em um ônibus na Avenida Domingos de Moraes e ouviu uma passageira perguntar se seu destino era Setealém. A narrativa prossegue com a sensação de que o veículo estava seguindo por um caminho que não deveria seguir.
Esse episódio é importante porque estabelece uma característica que reaparece em muitos relatos posteriores: o estranho não começa em um lugar obviamente sobrenatural. Começa em um ônibus, uma rua, uma passagem, um caminho cotidiano.
Se o fenômeno é contado como uma mudança de realidade, o elemento mais interessante não seria um lugar específico, mas a transição: o instante em que uma paisagem conhecida deixa de parecer conhecida.
2. O Relato Original — Domingos de Moraes
A viagem que criou o primeiro mapa
A Avenida Domingos de Moraes funciona, dentro desta investigação, como o ponto de partida documental do fenômeno. É aqui que o relato de 1994 encontra uma geografia real.
O próprio site oficial apresenta o episódio de 1994 como o “Incidente Setealém”, “Relato Prime” ou “Primeiro Contato”. A localização paulistana não é um detalhe decorativo: ela é parte da origem da história.
Mas há uma diferença essencial entre dizer que o relato aconteceu em São Paulo e dizer que São Paulo possui um portal. A primeira afirmação descreve a narrativa de origem. A segunda é uma hipótese que este dossiê está investigando.
3. ARQUIVO SP-ANHANGABAÚ — O PORTAL ZERO
Antes do concreto, havia água
O Anhangabaú entra no dossiê por uma razão diferente dos demais pontos: ele não nasce de um relato moderno de Setealém. Ele nasce da própria história da cidade.
O Vale do Anhangabaú foi estruturado pelo Ribeirão Anhangabaú, um curso d'água que teve papel importante na formação do núcleo histórico de São Paulo. O nome indígena atravessou séculos e permaneceu mesmo depois que o rio foi transformado pela urbanização.
Fontes paulistanas registram diferentes interpretações para a palavra Anhangabaú. O Sesc São Paulo, citando o tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro, apresenta como uma das interpretações “água da face do diabo”; outras fontes registram traduções ligadas a “água do mau espírito” ou “águas assombradas”. A própria variedade de traduções é relevante: não devemos transformar uma única interpretação moderna em uma certeza absoluta sobre a cosmologia tupi.
A Câmara Municipal de São Paulo registra que, no início do século XX, o Ribeirão Anhangabaú já estava canalizado e que o vale passou por grandes projetos de transformação urbana. A história do local é, portanto, uma história de água escondida, alteração da paisagem e sucessivas camadas urbanas.
E existe aqui uma coincidência narrativa impossível de ignorar: Setealém fala de uma realidade que parece estar por baixo ou atrás da realidade comum; o Anhangabaú é literalmente uma paisagem construída sobre um curso d'água que deixou de ser visto.
4. O nome que sobreviveu ao rio
São Paulo apagou visualmente o Anhangabaú, mas não conseguiu apagar o nome.
O vale mudou. O rio foi canalizado. O Viaduto do Chá atravessou a depressão. O centro cresceu sobre o antigo território. A água desapareceu da vista cotidiana — mas a palavra Anhangabaú continuou indicando que alguma coisa existira ali antes da cidade moderna.
É nesse ponto que a investigação encontra a mitologia indígena. Não para afirmar que Anhangá era um “demônio” no sentido cristão, mas para compreender como uma figura indígena foi reinterpretada durante o processo colonial.
5. ARQUIVO SP-ANHANGÁ — A PRIMEIRA TESTEMUNHA?
O Anhangá desta imagem é uma interpretação visual, não um retrato documental de uma entidade indígena. A iconografia moderna do cervo branco de olhos vermelhos tornou-se popular, mas não deve ser apresentada como se fosse uma fotografia ou uma descrição única e universal da tradição tupi.
O Anhangá pertence a tradições indígenas e aparece em diferentes descrições e interpretações. Em recontagens populares, ele aparece como uma presença ligada à proteção da mata e dos animais, capaz de punir quem ultrapassa determinados limites. Uma das imagens recorrentes é justamente a da **desorientação**: ilusões que fazem o caçador perder o caminho. A fonte educacional da MultiRio registra essa tradição de forma explícita. . Em processos coloniais, figuras indígenas também foram traduzidas para categorias cristãs, e o Anhangá acabou associado ao diabo ou ao “mau espírito” em várias explicações posteriores. Para este dossiê, porém, a conexão mais interessante não é transformar Anhangá em um monstro: é observar a antiga ideia de **perder o rumo depois de ultrapassar um limite**.
É aqui que o nome do vale se torna fascinante para esta investigação: uma palavra indígena associada a uma entidade espiritual acabou batizando um rio, um vale e uma das áreas mais importantes da cidade de São Paulo. O Sesc registra interpretações do termo Anhangabaú ligadas ao “mau espírito” e destaca a associação de Anhangá a uma entidade capaz, em determinadas interpretações, de enlouquecer pessoas e desviar almas. . É uma conexão histórica e simbólica poderosa para uma história sobre desorientação. **O primeiro portal do nosso mapa não precisa ser uma porta: pode ser o lugar onde a própria cidade aprendeu a esconder a água e onde um nome ligado ao mundo espiritual permaneceu vivo.**
O Quero Medo não precisa decidir se essa história é sobrenatural. Basta observar a camada cultural: antes de existir a lenda moderna de Setealém, o território já carregava uma linguagem de espírito, água, passagem e transformação.
6. ARQUIVO SP-CHÁ — A TRAVESSIA
Uma ponte sobre uma paisagem que desapareceu
O primeiro Viaduto do Chá foi inaugurado em 1892 e atravessou o vale quando o Anhangabaú ainda era uma presença física na paisagem urbana. A estrutura atual em concreto é posterior, de 1938.
O Viaduto do Chá é importante porque materializa uma ideia recorrente nos relatos: atravessar. A cidade moderna construiu uma ponte onde antes havia uma barreira natural. A passagem que hoje parece banal foi, durante décadas, uma intervenção monumental sobre a geografia original.
7. O MAPA V001 — QUANDO OS PONTOS SE ENCONTRAM
Até aqui, tínhamos uma história e uma cidade. Agora temos um mapa. Mas um mapa só começa a dizer alguma coisa quando sabemos por que cada ponto foi colocado nele.
O Mapa V001 reúne os sete pontos escolhidos para esta investigação. A sequência não pretende transformar coincidências em certezas; ela serve para cruzar relatos paulistanos com a geografia, os antigos caminhos, a água, a memória e as transformações da cidade.
8. OS CINCO RELATOS PAULISTANOS QUE COLOCARAM A CIDADE NO RADAR
Antes de seguir pelas ruas, precisamos voltar às pessoas. E desta vez há uma regra: se o relato não tiver relação com São Paulo, ele fica fora desta investigação. O objetivo deste dossiê é entender a lenda dentro da capital paulista, e não importar histórias de outras cidades para preencher o mapa.
O primeiro registro é o de Luciano Milici, em 1994. Depois vem o relato do tambor, atribuído a um morador da Saúde. Os demais pertencem a publicações paulistanas mais recentes do universo oficial de Setealém. O que os aproxima não é a mesma força documental, mas a repetição de uma estrutura: um lugar comum, uma passagem inesperada e a sensação de que a cidade deixou de obedecer às próprias regras.
Os cinco relatos abaixo são apresentados como relatos paulistanos. A função deles é mostrar os lugares e os padrões que alimentam a investigação: transporte, corredores, escadas, portas, estações, mudanças de paisagem e, principalmente, a sensação de atravessar para uma versão diferente da cidade. São histórias de pessoas que, dentro da lógica da lenda, encontraram uma passagem e conseguiram retornar para contar.
01 — O RELATO PRIME • VILA MARIANA / DOMINGOS DE MORAES
Em outubro de 1994, Luciano Milici, então estudante da ESPM — campus Vila Mariana — descreveu o episódio que se tornaria o Primeiro Contato de Setealém. O elemento decisivo é um ônibus: uma viagem cotidiana que, em determinado momento, ganha outro destino. O nome Setealém surge dentro daquele deslocamento e permanece associado à experiência. O próprio arquivo oficial mantém esse episódio como a origem da narrativa. Arquivo oficial
Para a nossa investigação, esse relato tem um valor especial: ele nasceu em São Paulo. Não precisamos transportar a lenda para a capital; ela já começa aqui. E começa justamente com a ideia que acompanhará todos os portais: seguir um caminho conhecido e, em algum ponto, perceber que alguma coisa mudou. A rua continua sendo a mesma, mas o sentido do caminho parece ter desaparecido.
02 — O TAMBOR É UM PORTAL • SAÚDE
No arquivo oficial, Marcos B. é apresentado como morador do bairro da Saúde, em São Paulo. Ao se mudar para uma casa, teria encontrado um grande tambor guardado em um closet. A história que recebeu de antigos moradores transformava o instrumento em uma passagem ritual, associada a desaparecimentos temporários e ao nome Setealém. O próprio arquivo informa que o depoimento foi reescrito por Luciano e que a identidade dos envolvidos foi preservada. Arquivo de outros relatos
O que nos interessa aqui é a localização e a estrutura da história. Não existe, nessa narrativa, uma porta monumental esperando alguém no meio da cidade. Existe uma casa comum, um objeto estranho e a ideia perturbadora de que uma passagem pode estar escondida dentro de um espaço que todos considerariam banal.
03 — O METRÔ VAZIO • JABAQUARA
Entre os relatos paulistanos mais recentes divulgados pelo Canal Oficial de Setealém está a história de Amanda e de um metrô vazio no Jabaquara. A chamada do próprio canal apresenta o episódio entre relatos de pessoas que teriam atravessado para outro lado da realidade e associa o caso ao metrô paulistano. Arquivo do Canal Oficial
O metrô acrescenta outra dimensão ao nosso mapa: uma rede subterrânea de deslocamento. São Paulo já possui uma cidade que se movimenta debaixo da cidade. Para uma investigação sobre passagens, túneis e mudanças de paisagem, essa camada não pode ser ignorada. E existe algo especialmente inquietante nisso: A lenda pergunta o que aconteceria se, por alguns minutos, essa certeza desaparecesse.
04 — O ALÇAPÃO DO IPIRANGA • PARQUE DA INDEPENDÊNCIA
Outro relato paulistano divulgado pelo Canal Oficial coloca três adolescentes no Parque da Independência, no Ipiranga, diante de um alçapão que teria levado a um espaço subterrâneo estranho. A própria publicação apresenta a história como um relato de Setealém ambientado em São Paulo. Arquivo do Canal Oficial
Aqui aparece uma imagem recorrente: a entrada escondida. Não é apenas atravessar uma rua; é descobrir que o lugar conhecido possui uma segunda camada. E o Ipiranga é especialmente interessante para o nosso mapa porque Vila Mariana, Saúde e o eixo histórico em direção ao sul da cidade não são territórios isolados: são áreas conectadas por antigos caminhos e sucessivas transformações urbanas.
05 — A ESTAÇÃO FANTASMA • BARRA FUNDA
Em setembro de 2026, um episódio do podcast Relatos do Além apresentou um relato de Setealém ambientado na Estação Barra Funda: três amigas teriam encontrado uma área vazia e tomada por uma névoa verde. A publicação identifica explicitamente a Barra Funda, em São Paulo, e apresenta o caso como um relato de Setealém. Arquivo do podcast
Novamente, o portal aparece como um espaço de passagem: uma estação, um andar, uma área que deveria conduzir a algum lugar. Quando a função daquele espaço deixa de corresponder ao que esperamos, nasce a sensação de que atravessamos para outro lado.
Os cinco relatos não apontam todos para o mesmo endereço. E justamente por isso eles são úteis. Eles repetem uma ideia: em São Paulo, a passagem para o estranho aparece associada a deslocamentos — ônibus, metrô, estação, escada, porta, casa, parque.
Agora podemos fazer a pergunta que interessa ao mapa: quais lugares da cidade já eram, historicamente, lugares de passagem?
E os outros? A história não responde.
Talvez seja essa a verdadeira ideia por trás dos portais. Não uma porta brilhando no meio da rua, mas um momento de desorientação em que a pessoa percebe que alguma coisa não está onde deveria estar. Os relatos que chegaram até nós são, dentro da lógica da lenda, os relatos daqueles que conseguiram encontrar o caminho de volta.
A cidade parece inteira. Mas basta conhecer sua história para perceber que ela foi construída sobre muitas outras cidades.
É uma pergunta assustadora porque São Paulo oferece o cenário perfeito para ela. Há ruas construídas sobre caminhos muito mais antigos, rios que desapareceram sob o asfalto, cemitérios que deixaram de existir na paisagem, antigas áreas de mata transformadas em bairros e trajetos que atravessaram a cidade durante séculos.
Você já caminhou pelas ruas de São Paulo e percebeu alguém completamente desorientado? Uma pessoa falando frases que parecem não fazer sentido, olhando repetidamente para os lados, tentando encontrar uma rua que aparentemente não existe, atravessando a calçada como se procurasse alguma coisa que só ela consegue enxergar?
Para quem passa, talvez seja apenas mais uma cena da cidade. Talvez seja alguém perdido. Talvez esteja atravessando uma crise. Talvez precise de ajuda.
Mas imagine, por alguns segundos, outra possibilidade — a possibilidade que pertence ao universo de Setealém.
E se aquela pessoa não estivesse tentando descobrir onde está, mas em qual realidade está?
9. DOS RELATOS AOS PORTAIS — A CIDADE COMO PISTA
É aqui que as vilas e regiões entram de verdade na investigação. Elas não são cinco relatos separados e também não são simplesmente cinco pontos escolhidos porque parecem assustadores. Cada uma precisa possuir uma ponte de ideia com aquilo que os relatos repetem.
Se os relatos falam de passagem, procuramos caminhos. Se falam de mudança de paisagem, procuramos lugares onde a paisagem histórica foi radicalmente transformada. Se falam de entradas escondidas, procuramos rios cobertos, túneis, desníveis e antigas rotas. Se falam de desaparecimento e retorno, olhamos para os lugares onde a cidade antiga foi soterrada pela cidade moderna.
O que havia aqui antes da cidade que vemos hoje?
Essa pergunta será repetida em diferentes formas ao longo do dossiê. Ela nos leva aos antigos caminhos, aos cursos d'água, ao território indígena, às primeiras estradas para Santo Amaro e Santos, aos cemitérios e aos lugares de execução. Em São Paulo, a ideia de uma cidade escondida não precisa ser inventada: boa parte dela realmente ficou sob a cidade atual.
10. ARQUIVO SP-MARTINELLI — O PRIMEIRO CORREDOR
O Martinelli parece, à primeira vista, um estranho ponto para uma investigação sobre caminhos. É um arranha-céu. Mas é justamente aí que começa a conexão.
O Edifício Martinelli foi construído entre as ruas São Bento, Líbero Badaró e a Avenida São João, no coração do centro histórico. A obra começou em 1924 e transformou verticalmente uma região que até então possuía uma escala urbana muito mais baixa. A própria história do prédio registra um detalhe curioso: durante as escavações, começou a minar água no subsolo, exigindo drenagem e desvio do caminho da água. Prefeitura de São Paulo
O vínculo com o portal, portanto, não é “o prédio é assombrado”. É mais interessante: o Martinelli está sobre uma cidade que mudou de escala e sobre um subsolo que já guardava água. Ao redor dele passam os antigos eixos do centro, hoje cobertos por concreto, comércio e circulação intensa.
O nome “Primeiro Corredor” nasce dessa sobreposição: o corredor vertical do próprio edifício, os eixos históricos do centro e a água que apareceu quando a cidade começou a cavar para construir para cima.
11. ARQUIVO SP-SUDMENUCCI — A LADEIRA
Sud Menucci precisa ser tratado com mais cuidado porque a própria rua não carrega, nas fontes históricas consultadas, uma narrativa sobrenatural específica. Sua importância para o mapa vem de outro lugar: ela está dentro da Vila Mariana e próxima de uma região moldada por antigos caminhos e transformações de circulação.
A história oficial da Vila Mariana registra que a antiga região se desenvolveu a partir de chácaras e que, entre 1883 e 1886, a ferrovia para Santo Amaro foi implantada sobre o antigo Caminho do Carro para Santo Amaro, no trecho então conhecido como Estrada do Fagundes. A nova infraestrutura alterou a ocupação das chácaras e reorganizou a circulação local. Prefeitura de São Paulo — Vila Mariana
É essa história que dá sentido ao portal. A ladeira não precisa ser “mágica”. Ela faz parte de uma região em que caminhos antigos foram substituídos, desviados e incorporados por novas rotas. A cidade mudou o percurso, mas não apagou completamente a lógica do território.
12. ARQUIVO SP-VILAMARIANA — O NÚCLEO DOS RELATOS
Vila Mariana é o ponto mais fácil de ligar ao nascimento da própria lenda. O site oficial de Setealém informa que Luciano Milici era estudante da ESPM — campus Vila Mariana — quando ocorreu o incidente de outubro de 1994. Setealém Oficial
Mas a história do bairro acrescenta uma camada que estava faltando no dossiê. A região começou a ser ocupada a partir de antigas propriedades rurais e, depois, foi atravessada pelo caminho para Santo Amaro. Quando a ferrovia foi instalada sobre o antigo Caminho do Carro para Santo Amaro, as chácaras foram fracionadas e a paisagem começou a se transformar. Arquivo Histórico Municipal / Prefeitura
Isso cria uma conexão muito mais forte com o Relato Prime: o primeiro contato acontece em uma cidade que já era feita de caminhos sobre caminhos. A Vila Mariana não é colocada no mapa apenas porque Luciano estudava ali; ela é o ponto onde a narrativa moderna encontra uma história muito mais antiga de circulação e transformação territorial.
13. ARQUIVO SP-ACLIMAÇÃO — A FRONTEIRA
A Aclimação acrescenta uma camada diferente: uma paisagem que nasceu como espaço rural e de experimentação antes de se transformar em bairro urbano. O atual Parque da Aclimação foi concebido no início do século XX nas terras de Carlos Botelho, que mantinha criação de gado, leiteria, jardim e o primeiro zoológico da cidade. Prefeitura de São Paulo
O contraste é justamente a chave do portal. Hoje temos prédios, ruas, trânsito e uma área verde cercada pela cidade. Antes, havia uma paisagem muito menos urbana. A Aclimação representa, no nosso mapa, a fronteira entre duas leituras do mesmo território: a cidade que existe agora e a paisagem que existia antes dela.
Quando os relatos de Setealém falam de lugares que parecem familiares, mas apresentam pequenas diferenças, essa transformação histórica fornece uma espécie de espelho real para a narrativa.
14. ARQUIVO SP-CEMITÉRIOS — A CIDADE DOS MORTOS
Há uma camada que não pode ficar de fora de um mapa de lugares de passagem: os espaços destinados aos mortos.
São Paulo mudou profundamente sua relação com os sepultamentos. Antes dos cemitérios públicos, era comum que os mortos fossem enterrados em igrejas. O Cemitério da Consolação, inaugurado em 1858, tornou-se a primeira necrópole pública do município. A própria Prefeitura registra que, antes de sua abertura, a cidade discutiu durante décadas a necessidade de afastar os sepultamentos do interior das igrejas. Prefeitura — As origens do Cemitério da Consolação
Mais tarde surgiram outras necrópoles. Mas existe uma história ainda mais inquietante para este dossiê: lugares de sepultamento que foram engolidos pela própria expansão urbana. O Cemitério dos Aflitos é o exemplo mais forte. A Prefeitura registra que o antigo cemitério ocupava uma área delimitada pelas atuais ruas Galvão Bueno, Glória, Estudantes e Radial Leste e fazia parte do antigo circuito de punição e morte da cidade. . Em 2025, escavações na Capela dos Aflitos encontraram restos mortais de cinco a dez pessoas, confirmando arqueologicamente o uso histórico daquele espaço como parte do cemitério. Entre os sepultados estavam condenados à morte, pobres, indígenas e pessoas escravizadas. . **A cidade construiu em cima do lugar. A memória, porém, ficou embaixo.**
Mas nenhum lugar do nosso mapa concentra essa relação entre passagem, morte e memória de maneira tão intensa quanto a Liberdade.
O Cemitério dos Aflitos fazia parte de um circuito que incluía Pelourinho → Casa de Câmara e Cadeia → Largo da Forca → Cemitério dos Aflitos. O conjunto aparece em documentos municipais como parte da história da punição e da morte na São Paulo colonial e imperial. Escavações recentes na Capela dos Aflitos encontraram restos mortais, confirmando arqueologicamente o uso histórico da área como necrópole.
15. ARQUIVO SP-LIBERDADE — O ÚLTIMO PORTAL
A Liberdade é onde o nosso mapa deixa de parecer apenas uma sequência de lugares e começa a formar uma história.
A região guarda um dos vínculos históricos mais fortes de toda a investigação: o Caminho Histórico Glória–Lavapés. O CONPRESP reconhece oficialmente o traçado sinuoso da Rua da Glória e da Rua do Lavapés e registra que esse caminho fazia parte da ligação entre o centro de São Paulo e Santos, seguindo depois em direção ao Ipiranga e à Serra do Mar. Antes da ferrovia, era utilizado por tropeiros. O órgão também reconhece áreas de interesse arqueológico relacionadas ao caminho. CONPRESP — Caminho Histórico Glória–Lavapés
Agora olhe para o mapa novamente. Um caminho antigo atravessa a região. Próximo dele existiam o Largo da Forca e o Cemitério dos Aflitos. A atual Praça da Liberdade está sobre um território onde ocorreram execuções públicas e sepultamentos de pessoas escravizadas, indígenas, pobres e condenadas à morte. A Capela dos Aflitos, construída dentro desse antigo cemitério, permanece como uma das últimas estruturas materiais dessa camada da cidade. . E existe ainda a memória de Chaguinhas, condenado à morte no início do século XIX. O memorial histórico da Prefeitura registra a tradição segundo a qual a corda se rompeu durante a execução, episódio que ficou ligado à mudança do nome da região para Liberdade. . Aqui, a palavra **portal** ganha uma dimensão particularmente sombria. O caminho levava para fora da cidade. A forca marcava o limite entre a vida e a morte. O cemitério recebia aqueles que não voltariam. E, séculos depois, o bairro se transformou completamente. **Quantas camadas de uma mesma cidade podem ocupar o mesmo lugar antes que alguém deixe de reconhecer o que está pisando?**
E existe ainda a história de Chaguinhas, condenado à morte no século XIX, cuja execução se tornou parte da memória da região e da tradição da Santa Cruz dos Enforcados. O próprio memorial municipal registra a associação entre o antigo Largo da Forca, o episódio e a mudança do nome que acabaria consagrando a região como Liberdade. Memorial Histórico da Liberdade
Em 2025, durante trabalhos na Capela dos Aflitos, arqueólogos encontraram restos mortais de cinco a dez pessoas em diferentes níveis do subsolo. A Prefeitura informou que o achado reforçou a evidência do uso histórico daquela área como parte do antigo Cemitério dos Aflitos. Prefeitura — achado arqueológico
É por isso que o nome O Último Portal ganha outra dimensão. Não porque a Liberdade seja uma passagem sobrenatural comprovada, mas porque ali encontramos uma sequência histórica extraordinária: caminho, limite urbano, execução, cemitério, capela, memória e arqueologia. É um lugar onde diferentes épocas literalmente ocupam o mesmo território.
16. ARQUIVO SP-RIOS — A CIDADE QUE CONTINUA DEBAIXO
São Paulo possui uma extensa rede de rios e córregos que foi canalizada, coberta ou incorporada ao sistema viário. O Anhangabaú é um dos exemplos centrais dessa transformação. Mapas históricos permitem comparar os cursos antigos com a cidade atual.
Essa é uma das peças que mais aproximam a história real da atmosfera de Setealém. A cidade moderna realmente esconde uma cidade anterior. Cursos d'água desapareceram da vista, caminhos foram absorvidos por novas ruas e terrenos foram ocupados por edifícios. **São Paulo não precisou construir uma cidade invisível para esconder outra: bastou continuar crescendo.**
Quando colocamos isso ao lado dos relatos, surge uma imagem poderosa: uma pessoa atravessa uma cidade que conhece sem perceber quantas cidades anteriores continuam inscritas no mesmo território. Talvez seja essa a melhor chave para entender os portais: não como portas isoladas, mas como pontos onde duas histórias da mesma cidade parecem se tocar.
17. ARQUIVO SP-PAINEL — COINCIDÊNCIA OU PADRÃO?
Agora podemos colocar todas as peças sobre a mesa.
Sete pontos. Cinco relatos paulistanos. Um nome indígena que atravessou séculos. Um vale moldado pela água. Caminhos que ligavam o centro ao sul e ao litoral. Um arranha-céu construído sobre um subsolo que exigiu drenagem. Antigos cemitérios, lugares de execução, capelas e vestígios arqueológicos. E uma cidade que continua sendo reconstruída sobre aquilo que existia antes.
Talvez os “portais” não sejam pontos isolados. Talvez a força da lenda venha justamente daquilo que São Paulo já possui: uma rede real de transições entre água, ruas, trilhos, viadutos, caminhos antigos, cemitérios, bairros e paisagens que mudaram completamente.
Essa hipótese explica a estrutura narrativa dos relatos; não comprova uma estrutura sobrenatural.
18. O QUE REALMENTE DESCOBRIMOS?
Depois de cruzar os relatos com a história urbana, uma conclusão fica mais interessante do que a ideia de simplesmente “encontrar um portal”.
São Paulo já é uma cidade de camadas.
Há a cidade indígena e seus territórios anteriores à ocupação colonial. Há a vila colonial. Há os rios que estruturaram caminhos e abasteceram a população. Há a cidade do século XIX, as pontes e o Viaduto do Chá. Há a cidade industrial, os grandes edifícios, avenidas, túneis e rios canalizados. E existe a cidade contemporânea, que passa diariamente por cima de tudo isso sem necessariamente perceber o que está abaixo.
Setealém se encaixa perfeitamente nesse imaginário porque sua premissa é justamente a existência de um “outro lugar” muito próximo do nosso.
Talvez seja por isso que a lenda seja tão persistente: ela transforma uma sensação urbana real — estar em uma cidade familiar que de repente parece estranha — em uma narrativa de outro mundo. **Você sai de casa conhecendo o caminho. Depois de alguns minutos, alguma coisa parece fora do lugar. E é justamente nesse instante que a imaginação pergunta o que a cidade pode estar escondendo.**
O que a investigação encontrou foi uma cidade que oferece, em sua própria história e geografia, quase todos os elementos que tornam a lenda de Setealém convincente: caminhos que mudaram, rios que desapareceram, passagens que atravessam vales, bairros que se transformaram e nomes que carregam histórias muito anteriores à cidade moderna.
Talvez o portal nunca tenha sido uma porta.
Talvez tenha sido sempre um caminho.
E talvez o mais estranho em São Paulo não seja imaginar uma cidade escondida atrás da nossa.
É descobrir quantas cidades já existiram exatamente aqui — e imaginar o que aconteceria se, por um instante, uma delas voltasse a aparecer.
Fontes e documentos consultados
Para separar o que pertence à história documentada do que pertence ao universo de relatos, esta postagem usa fontes primárias, institucionais e jornalísticas sempre que disponíveis.
- Setealém Oficial — O que é Setealém: origem do relato de 1994, contexto de Luciano Milici e ressalvas sobre os relatos de terceiros.
- Setealém Oficial — versão histórica do site: arquivo de relatos e explicações sobre a origem da narrativa.
- Câmara Municipal de São Paulo — Vale da discórdia: transformações do Vale do Anhangabaú e canalização do ribeirão.
- Sesc São Paulo — São Paulo, terra indígena: território indígena e diferentes interpretações do nome Anhangabaú.
- Folha de S.Paulo — rios que moldaram o centro de São Paulo: mapas históricos e evolução dos cursos do Anhangabaú e Tamanduateí.
- Folha de S.Paulo — rios escondidos de São Paulo: histórico da canalização e cobertura de cursos d'água.
- Prefeitura de São Paulo — As origens do Cemitério da Consolação: formação dos cemitérios públicos e transformação dos espaços de sepultamento.
- CONPRESP — Cemitérios da Consolação, Protestantes e Ordem Terceira do Carmo: proteção patrimonial e importância histórica das necrópoles.
- CONPRESP — Caminho Histórico Glória–Lavapés: caminho para Santos, traçado histórico e áreas de interesse arqueológico.
- Prefeitura de São Paulo — Achado arqueológico na Capela dos Aflitos: restos mortais encontrados durante as pesquisas arqueológicas.
- Prefeitura de São Paulo — História da Vila Mariana: antigo Caminho do Carro para Santo Amaro e transformação da região.
- Prefeitura de São Paulo — História do Edifício Martinelli: construção, verticalização e água encontrada no subsolo.
- Prefeitura de São Paulo — Parque da Aclimação: origem rural, criação de gado, leiteria e formação do Jardim da Aclimação.
- USP — Patrimônio Histórico e Cultural: contexto histórico da região do Anhangabaú.
- CONPRESP — Resolução nº 2/2026: rerratificação recente dos tombamentos do Caminho Histórico Glória–Lavapés e do conjunto patrimonial da Liberdade.
Continue a investigação
Se esta cidade parece esconder mais de uma história, continue pelo arquivo do Quero Medo. Quatro portas diferentes, quatro investigações para seguir depois de Setealém.